Obrigação ou Lógica? Publicado em 06/10/2009 às 16:00:00hs Por Rodrigo Galvão
Outro dia, numa mesa de bar, entrei num debate com dois amigos sobre os confrontos no Campeonato Brasileiro. Após uns goles numas geladas todos viraram filósofos. Mais uns goles e nos sentíamos verdadeiros Sócrates, Aristóteles, Platão. Era "filosofia futebolística" pura! Parecia que estávamos resolvendo os problemas do mundo. Pense numa falta do que fazer! Na ocasião o assunto em pauta era o que viria a ser obrigação e o que viria a ser a lógica nos confrontos de um campeonato como o Brasileirão. É oportuno dizer que no jargão do futebol o termo "lógica", ganha um novo sentido, uma conotação nova, diferente da sua definição tradicional que diz que ela "trata da preservação da verdade e dos modos de se evitar a inferência e raciocínio inválidos". No meio futebolístico, lógica está mais para provável. No futebol dizer que é lógico, nada mais é do que dizer que é ou que era provável ou previsível. Então quando alguém disser que um resultado de uma partida é lógico, ele está apenas dizendo que a probabilidade de dar aquele determinado resultado é muito alta. Quanto mais lógico, mais provável. Até porque lógica é algo exato, é certo e determinado, podendo estar obscuro ou não. É algo inalterado e, portanto, se fosse para ser utilizada ao "pé da letra", a lógica nunca seria aplicada ao futebol. Esclarecido tudo isso, afirmo que toda esta discussão nasceu quando um falou: Rapaz! O time "X" tinha a obrigação de vencer o time "Y" naquele jogo! Aí veio o outro e falou: Obrigação que nada! A obrigação era do time "Y" vencer! Visto que já tínhamos "derrubado" algumas garrafas de cerveja e que nem de longe se avistava uma solução para aquele imbróglio, não teve outro jeito, tive que intervir. Minha carteira clamava por uma atitude enérgica e imediata. Vale dizer aos amigos leitores de toda esta baboseira, que a minha intervenção se deu muito mais pelo fato de que não sou muito de beber, mas estava dividindo as geladas de forma igualitária com dois verdadeiros pinguços (sem querer ofender), pois foi o combinado antes da empreitada nas geladas. A velocidade que eles bebiam era impressionante, a solução do problema não se avistava, como eu já disse, mas o “fumo” que eu iria levar... Este sim eu já estava vendo! Pois bem, concluímos que independente da força, da tradição, do dinheiro, e tantos outros fatores que juntos fazem a diferença entre os gigantes, grandes, médios e pequenos (acredito que no Campeonato da Série A não existam pequenos), todo clube que joga em casa, ou seja, nos seus domínios, tem a obrigação de vencer! Esteja ele na primeira posição ou amargando a lanterninha. Fato consumado! Jogou em casa tem que vencer! Não venceu? Então já deixou de fazer a sua obrigação! Obrigação é, portanto, imutável. Antes mesmo de começar a competição você já pode dizer que o time que joga em casa tem a obrigação de vencer, e isso independe dele ser superior tecnicamente ao adversário. Já a lógica é perfeitamente mutável. No começo da competição sempre se aponta os favoritos ao título, baseado, claro (pra não dizer lógico), nas melhores equipes. Conforme as obrigações vão sendo ou vão deixando de ser cumpridas, ou seja, as equipes vão perdendo pontos em casa ou ratificando o seu mando de campo, o fator "lógica" entra em cena com maior ou menor intensidade. A obrigação é óbvia, a lógica nem sempre! Basta as duas equipes estarem totalmente equilibradas por "n" fatores, que a lógica já não ficará tão evidente. Exemplos disso são os clássicos em que ambas as equipes estão totalmente equilibradas, a lógica que apontaria um vencedor parece sumir netas horas. Outro exemplo, já falando da Série A 2009 é o do Avaí, que antes do início da disputa era apontado como um dos rebaixados certos. Hoje se percebe que dificilmente isso ocorrerá. Dizer que um time vai ser rebaixado é, em outras palavras, dizer que ele não influenciará significativamente na obrigação dos adversários e que, além disso, não cumprirá com presteza a sua obrigação, que nada mais é do que vencer os jogos quando for o mandante. Observem: No Campeonato Brasileiro cada time faz dezenove partidas em casa, se vencer todas somará cinqüenta e sete pontos, bem acima dos quarenta e cinco, considerado o número mágico para um clube não ser rebaixado. Ao contrário da obrigação, a lógica varia de acordo com o desempenho da equipe dentro da competição, por isso, nem sempre o título fica com o time apontado lá no início como o grande favorito. Vamos exemplificar: São Paulo X Náutico no Morumbi este ano. A obrigação de vencer era do time paulista e a lógica também dizia que vitória seria do São Paulo, afinal, na época do confronto o time paulista tinha (embora ainda tenha) um time mais qualificado que o Timbu. Resultado final: São Paulo 2 X 0 Náutico. Podemos dizer que deu a lógica, e que time paulista cumpriu com a sua obrigação. Já no jogo de volta, Náutico 1 X 2 São Paulo, a obrigação era do Náutico vencer! Ele era o mandante, portanto tinha a obrigação de sair de campo com a vitória. Mas aí entra em cena o fator "lógica"! Por ser o São Paulo candidato ao título e ocupando a segunda posição na tabela, na qual o Náutico estava no limiar da zona de rebaixamento, dizia a lógica: O São Paulo vence o jogo. E deu a lógica. Acredito que com estes exemplos fica mais fácil (ou menos complicado) dizer que no início da competição o campeão sairá dentre aqueles que ocupam o escalão superior do "Clube dos 13", como todos possuem obrigações iguais, são eles que contam favoravelmente com a lógica. Já para os que nem ao menos fazem parte do famigerado Clube, sonhar com o título é uma tarefa das mais complicadas, pois, além de cumprir com a obrigação, são estes que mais terão que contrariar a danada da lógica! Percebemos, portanto, que os favoritos têm a obrigação e na maioria das vezes contam com a lógica ao seu lado. Já os demais, apesar de terem a obrigação, nem sempre contam com a lógica. Não pensem na lógica como algo concreto, pois o Brasileirão é cheio de resultados contrários a ela, mas no final, geralmente o título fica com os times para os quais ela já apontava. Mesmo sabendo que, como já mencionei, ela é mutável. Outor ponto é que nem sempre a lógica desta rodada será a da próxima. Goiás X Botafogo, obrigação e lógica apontavam para o time goiano, deu Botafogo! Que ironia, não? Se falarmos em competições de tiro curto, como é a Copa do Brasil, veremos que as chances da "lógica" ser surpreendida é ainda maior. A prova disso é que não é raro ver clubes que se quer ocupam a elite de cenário nacional chegarem às finais e até conquistarem o título. Isso só corrobora com a idéia inicial de que é fácil definir "obrigação", já a "lógica", no futebol, a menos que você a entenda como provável, como previsível... Só tem de "lógica" o nome! |
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